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A Faculdade da Filosofia (FAF) da Universidade Eduardo Mondlane acolheu, no dia 31 de Agosto do ano corrente, a cerimónia de lançamento do 1˚ Ciclo de Palestras desde a sua criação a 3 de Março de 2010.
Com o tema principal “Independência, Educação e Desenvolvimento: que perspectivas filosóficas?” e inserido nas comemorações do 36° aniversário da Independência Nacional, este ciclo de palestras tem por objectivos centrais analisar os pressupostos, o sentido e o alcance teleológico da Independência ontem, hoje e amanhã assim como destacar a educação como parte do processo de libertação e condição sine qua non para o desenvolvimento.
Para a abertura do evento a Faculdade da Filosofia foi honrada pela apresentação do antigo chefe de Estado, Joaquim Chissano, com o tema “Contribuições Contextuais para a formação da Consciência libertária”, antecedendo mais duas apresentações, nomeadamente do Prof. Doutor Severino Ngoenha, com o tema “Sentido Filosófico da Independência Nacional”, no dia 06, terça-feira, e Prof. Doutor Brazão Mazula, que falará no dia 14 sobre a “Educação como Factor de Libertação para o Desenvolvimento”.
Segundo Chissano, a consciência libertária dos moçambicanos desenvolveu-se a vários níveis, ao nível das lutas para a conquista e subjugação de uns povos pelos outros da mesma área geográfica que até ultrapassava os limites do actual território moçambicano, onde os povos que iam ser subjugados desenvolviam um espírito de defesa e de resistência a essa dominação e subjugação e quando eram vencidos, nascia neles o espírito de luta pela libertação. E o outro nível, segundo o palestrante, foi o da consciência libertária do povo moçambicano contra o colonialismo português.
”Quem contribuiu para criar esta consciência foi a natureza do próprio colonialismo. A sua brutalidade na opressão e repressão em resposta ao aumento da resistência à ocupação colonial mostrou àqueles povos reinados ou grupos que outrora se digladiaram a necessidade de estabelecerem alianças para combater o inimigo comum e nascia assim uma nova forma de consciência libertária e de formação de uma nova nação”, disse Chissano.
Chissano acrescentou que quando o colonialismo pensava que se tinha implantado em Moçambique com as actuais fronteiras já delimitadas, o processo da formação e desenvolvimento da consciência libertária renova-se e tratou-se de uma consciência de todo um povo desde aos extremos Sul ao Norte do país despertado por um sofrimento igual.
Disse ainda que o colonialismo viu-se na contingência de instruir alguns moçambicanos para servirem os interesses da colonização e utilizava também a religião para tentar evitar o acesso rápido do conhecimento dos indígenas.
De acordo com Chissano, os poucos que tiveram educação compreenderam e analisaram o comportamento dos colonizadores e acompanhavam o pouco que chegava ao país das lutas de outros povos colonizados que denunciavam a desigualdade, a descriminação racial e exclusão social e destacou o movimento Pan-Africano, o Instituto Negrófilo, o Centro Associativo dos Negros da Colónia de Moçambique e os movimentos nacionalistas como pulssionadores da formação consciência libertária.
”Porém, a contribuição para a formação da consciência libertária veio para Moçambique também através de contactos directos de moçambicanos com os movimentos nacionalistas dos países vizinhos, tais como as Rodésias do Sul e do Norte e Niassalandia e Tanganyika”, salientou.
Afirmou que as contribuições da formação da consciência libertária continuaram ao longo da luta de libertação nacional, sobretudo ao longo da luta armada.
Ainda de acordo com ele, o Continente Africano teve um papel fundamental no desenvolvimento da consciência de libertação dos moçambicanos, onde os compatriotas que viviam em países vizinhos, como África do Sul, Rodésia, Tanzânia, Zâmbia, entre outros aprenderam, inspiraram-se e foram motivados pelas experiências das lutas políticas que aí decorreram.
”A decisão política de vários países recém libertados e da Organização da Unidade Africana, em conceder apoio político, diplomático, militar e humanitário aos povos em luta pela independência teve um impacto galvanizador sobre os moçambicanos. A solidariedade africana ajudou-os a enquadrar a sua lista no quadro mais global da luta de África contra o colonialismo”, disse Chissano.
Chissano disse ainda que pode se dizer com propriedade que na década 60, África vivia o fervor emancipalista e é neste ambiente que decorre a luta pela libertação de Moçambique.
Considera o antigo chefe de Estado importante que os moçambicanos investiguem todas as facetas da sua história, que discutam e divulguem o conhecimento por eles gerado e não fiquem à espera que pesquisadores de fora o façam com distorções daí decorrentes.
Falando na ocasião, a Vice-Reitora Académica da UEM, Prof. Doutora Ana Mondjana, disse que o evento constitui um marco não só para a história da Faculdade da Filosofia, mas para toda a comunidade científica do país, pois representa a “inauguração” de um espaço de debate aberto e desinteressado de ideias, de produção de conhecimentos e saberes tendentes a fomentar o espírito de democracia, consolidar a independência, a soberania e a unidade nacionais, a fim de gerar o desenvolvimento para os moçambicanos de hoje e para as gerações vindouras.
“Ele significa, em última instância, um avanço para a construção de um espaço de debate filosófico interventivo na nossa sociedade, razão pela qual nos associamos a esta iniciativa e fazemos votos que o mesmo tenha muitos sucessos”, salientou.
Num outro ponto Mondjana afirmou que parece possível afirmar que a Filosofia tem um papel a desempenhar na compreensão do processo libertário do nosso país e na construção de modelos de educação e desenvolvimento social, económico e político.
“Cabe às instituições de ensino superior aprimorar os mecanismos para a captação desse papel, ao mesmo tempo que devem primar pela construção de um discurso de desenvolvimento que se consubstancia com as disposições estratégicas do Governo como a redução da pobreza absoluta, o desenvolvimento económico e social do país, a valorização e promoção da cultura de paz e de trabalho, e o reforço da soberania e da cooperação internacional, devem procurar construir saberes sobre diversas temáticas, incluindo as de filosofia tais como a democratização, filosofia africana, ensino e formação em filosofia, ética, teologia e não só”, disse Mondjana.
Por seu turno, o Director da Faculdade de Filosofia, Doutor Pedro João Búfalo, disse aos presentes que apesar da Faculdade que dirige ser muito jovem e estar na sua fase de implantação, abraça uma nova vertente da sua missão, a extensão universitária, onde se propõe assumir-se como um pólo privilegiado de forja de pensadores nacionais dedicados à busca de respostas ou soluções estratégicas para as questões de desenvolvimento do país.
“Propomo-nos estimular o debate aberto de ideias através de palestras, seminários e congressos, bem como a realização de prática e aperfeiçoamento de capacidades cognitivas e argumentativas sobre os problemas da nossa sociedade, através da aplicação do método filosófico na sua discussão”, disse.
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