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Oradores descrevem Mondlane como humanista, académico e revolucionário

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Os oradores que integraram o simpósio sobre o "Centenário Eduardo Mondlane – o Legado", descrevem Mondlane como um humanista, académico e revolucionário, um indivíduo que viveu, trabalhou e funcionou num mundo bipolarizado da qual também sofreu muitas polémicas, mas cujo denominador comum que transmitiu ao longo da sua vivência, foi a defesa da identidade do povo moçambicano e a luta pela independência completa de Moçambique.
Falando sobre o perfil político e diplomático e a sua formação em termos de personalidade, o Prof. Doutor Joel Das Neves Tembe, Vice-Reitor da UEM para Administração e Recursos, descreveu Mondlane como alguém que desenvolveu a sua consciência num particular contexto social, desenvolveu a sua formação académica em diferentes partes do mundo, África do sul, Portugal e EUA, e a sua capacidade de ler criticamente as diferentes formas de opressão que caracterizaram o seu tempo, bem como a capacidade de avançar narrativas propositivas sobre o "dever" numa perspectiva humanista, além de uma perspectiva autoreflexiva que o caracterizaram justamente por reflectir sobre as suas próprias escolhas e os roteiros a seguir.
Das Neves Tembe acrescentou que o humanismo de Mondlane ficou vincado nos estudos sobre o ser humano, quer no campo sociológico e/ou psicológico. O seu interesse em pesquisa sobre assuntos sociais e problemas de racismo nos EUA e na África, ocupou grande parte da sua actividade investigadora e de palestrante, sendo neste contexto que assumiu a vaga como investigador social nas Nações Unidas ao invés de aceitar o convite, em 1957, para integrar a equipa de docentes e investigadores no Instituto de Estudos Ultramarinos de Lisboa. "Na verdade, o governo colonial queria capturar Eduardo Mondlane para os seus interesses e moldá-lo às políticas de transformação que estavam em curso no processo das reformas, desde a mudança da ideia das colónias para províncias ultramarinas", explicou.
Esclareceu que o projecto de liberdade de Eduardo Mondlane passava pela construção da nova sociedade, preocupando-se com as questões teóricas de organização da sociedade, procurando sempre os melhores conselhos e debates sobre a estratégia a seguir.
Na sequência, o Prof. Doutor Edmundo Macuácua, director do Arquivo Histórico de Moçambique, realçou o contexto da guerra fria em que caracterizou o espaço sociopolítico que Eduardo Mondlane navegou, um complexo espaço de constelação de forças hegemónicas em diferentes quadrantes do globo. Para o académico, tal revelou a tenacidade com que Mondlane sempre perseguiu os seus objectivos como causas e valores inalienáveis, tais como as questões da justiça, a educação e a liberdade.
Por sua vez, o Filósofo e Professor Catedrático Severino Nguenha, foi convicto ao afirmar que o arquitecto da unidade nacional, só recorreu à luta de libertação sob forma de sevícia militar como o último recurso, porque ele dava primazia a palavra, ao diálogo, a concertação, a solução dos conflitos através de troca de ideias, da controvérsia teórica e do diálogo. "Eu penso que neste Moçambique cansado pela violência e pelas oposições, precisa remobilizar a figura de Mondlane para reaprender a colocar a palavra, o diálogo em cima das suas preocupações", disse.
Nguenha referiu que quando se lê sobre Mondlane descobre-se que ele tinha uma concepção de viver juntos que não correspondia à maneira como o país viveu de 1975 a 1990, e quando se olha para a organização do sentido dos poderes no espaço político moçambicano no seu aspecto administrativo, percebe-se que Mondlane estava ainda mais longe porque ele nunca pensou no tribalismo, mas sempre como associar as diferenças para criar um espaço comum. Para Nguenha, urge pensar Moçambique a partir de um ponto de vista moçambicano, ter prioridades nossas, pensar nos nossos em primeiro lugar antes dos negócios do grupo, tal é algo que Mondlane pode e deve nos ensinar.
Concluiu dizendo que Mondlane é convocável para o discurso do futuro porque as suas principais preocupações e intuições fundamentais podem nos interrogar e ajudar a recorrigir o que pode ser corrigido para redicionar o processo de lutar por Moçambique.